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O sofrimento do cuidado: Riscos psicossociais do cuidado em saúde mental

por Hallal, Rafaela, Magalhães, Jorge, Robe Medran, Kássia, Warken Borges, Gustavo

Universidade Federal de Pelotas

Resumen:

Este ensaio tem por intuito promover o debate sobre o sofrimento de pessoas relacionadas a profissões com enfoque no cuidado em saúde mental, como psicólogos, terapeutas ocupacionais, acompanhantes terapêuticos, e afins, em conjunto com a análise do filme brasileiro “Por que você não chora?” da diretora e psicóloga Cibele Amaral.

A análise tem por foco a maneira que decorreu o processo de acompanhamento terapêutico da estudante Jéssica com a paciente Barbára, pensando nos fatores de risco desse processo a saúde mental dos cuidadores, ao mesmo tempo que debate qual o preparo pessoal necessário para o exercício dessas profissões com ética e responsabilidade.

Palabras Clave: Terapia | saúde | sofrimento | profissional

The Burden of Care: Psychosocial Risks in Metal Health Care

Abstract:

This essay aims to promote debate about the suffering of people involved in professions focused on mental health care, such as psychologists, occupational therapists, therapeutic companions, and the like, together with the analysis of the Brazilian film “Why Don’t You Cry?” by director and psychologist Cibele Amaral.

The analysis focuses on the way in which the therapeutic monitoring process of student Jéssica with patient Barbára took place, considering the risk factors of this process for the mental health of caregivers, while also discussing the personal preparation necessary to exercise these professions with ethics and responsibility.

Keywords: Therapy | health | suffering | professional


O filme “Por que você não chora”, dirigido e roteirizado por Cibele Amaral, apresenta temas sensíveis da saúde mental, como suicídio, transtorno de personalidade bordeline e os desafios de autoconhecimento. A narrativa se desenvolve a partir do encontro entre Jéssica, uma estudante de psicologia desempenhando um papel de acompanhante terapêutica em um estágio supervisionado da faculdade de psicologia, e Bárbara, uma paciente com diagnóstico de transtorno de personalidade borderline que está tentando reinserir-se no contexto social após uma estadia em um centro de atenção psicossocial (CAPS). Ao tratar de questões como os limites da escuta terapêutica, o sofrimento silencioso e os estigmas em torno dos transtornos mentais, o filme expõe o colapso emocional de sujeitos em busca de si mesmos.

Dentre vários tópicos abordados, o suicídio surge como a temática central, fazendo espectadores e profissionais a refletirem sobre a responsabilidade ética e afetiva no cuidado com a saúde mental.

Segundo dados do Ministério da Saúde (2023), o Brasil registrou 16.468 mortes por suicídio em 2022, com uma média de 38 óbitos por dia. Esse cenário revela a necessidade de ações integradas que considerem as vulnerabilidades sociais, de gênero e pertencimento étnico. De acordo com Botega (2014), “a prevenção do suicídio exige estratégias de abordagem intersetorial, com ações de promoção da saúde mental, redução de estigmas e fortalecimento de rede de apoio social”. Torna-se, portanto, fundamental romper com os tabus que cercam o tema.

Quando pensamos na temática de suícidio não podemos deixar de perceber que entre profissionais da saúde é um problema relevante, com risco aumentado em relação à população geral (Banerjee;Varshney;Vajawat, 2020) . Os principais fatores de risco incluem depressão, burnout, problemas no trabalho, questões de saúde física e mental, violência no ambiente de trabalho e barreiras para buscar ajuda. Se ainda pensarmos no impacto da pandemia de COVID-19 agravou muitos desses fatores, já que a maioria dos profissionais ficaram na linha de frente, arriscando suas vidas sem nenhum suporte ou acompanhamento psicológico.

Quando relacionamos esta temática no filme, não é nem um pouco diferente. A Jéssica enquanto profissional da saúde em formação não dava devida atenção para sua vida pessoal, não conseguia perceber que existiam fatores ocupacionais, psicossociais, fatores individuais e demográficos em sua trajetória, apenas se preocupava em encontrar tais temáticas na vida de seus pacientes. Mas, não devemos culpá-la por não colocá-la em primeiro lugar, visto que não somos ensinados em nossas faculdades a nos preocuparmos conosco e sim com o outro. O paciente sempre em primeiro lugar, não somente na parte de estudos de casos clínicos, mas durante a prática em estágios e demais atividades que os estudantes se colocam durante toda sua trajetória acadêmica. Em qual cadeira, ou qual professor que instiga em seus alunos a importância de procurarem ajuda de outro profissional para ter um suporte emocional suficiente para lidar com adversidades? Este é um ótimo tema para ser tratado em salas de aulas, não somente na área acadêmica, mas de outras áreas e fases da vida. Pois, se formos pensar em nossas trajetórias, desde pequenos somos ensinados a “aguentar” e nunca a “desmoronar” quando precisamos. A sala de aula atualmente é formada por profissionais despreparados e muitas vezes com uma vida exatamente como retratada pela estudante Jéssica. Não há preocupação com o profissional, há um “mascaramento” de suas emoções, visto que não se pode passar nada de sentimentos seja aos alunos ou aos pacientes e sim o tão cobrado conteúdo, notas, avaliações, deveres, são colocados a todo instante em primeiro lugar.

A personagem Jéssica, enquanto estudante de psicologia e acompanhante terapêutica, revela fragilidades emocionais profundas, soterradas sobre uma solidão e um embotamento emocional, que chega em uma cena crítica de tentativa de suicídio. Essa escolha de roteiro, aponta uma realidade vivida por muitos profissionais e estudantes da saúde mental: a dificuldade de cuidar de si enquanto cuidam do outro. Segundo um estudo realizado por Monteiro et al. (2020), verificou-se que estudantes da área da saúde, apresentam alta prevalência de sintomas depressivos, muitas vezes relacionados à pressão acadêmica, histórico de trauma e falta de apoio institucional.

A história de vida de Jéssica é apresentada por fragmentos ao longo da trama, filha mais velha de uma família pequena, fica responsável desde de muito nova a cuidar da irmã mais nova ainda, reside em uma cidade do interior e se aventura em uma metrópole em busca de melhores condições de vida adentrando no ensino superior em uma faculdade de psicologia. Nessa mudança, Jéssica leva sua irmã mais nova consigo e se torna cuidadora principal desta, entre as responsabilidades maternais com a sua irmã, as demandas profissionais do seu trabalho, e a pressão acadêmica de novos estágios e avaliações, Jéssica encontra Bárbara.

Bárbara é uma mulher mais velha, em torno de seus 35 anos, diagnosticada com transtorno de personalidade borderline, estava residindo em um centro de atenção psicossocial para concentrar-se em seu tratamento, separada do filho pelo marido por causa do estado mental que ela se encontrava e por causa dos estigmas carregados pelo diagnóstico. Bárbara se encontra com Jéssica no processo de readaptação à própria rotina social, após deixar seu período de tratamento dentro de um CAPS.

Após esse encontro, Jéssica se torna acompanhante terapêutica de Bárbara, estabelecendo entre si uma relação clínica diferente, fundamentada sobre a clínica peripatética (Lancetti, 2008). O acompanhamento terapêutico é um instrumento fundamental para a reinserção à vida social, possibilitando e auxiliando o paciente reconhecer seus limites e potencialidades nesse processo, ao ponto que permite ao terapeuta compreender de maneira mais clara as situações do cotidiano geradoras de angústia ao paciente egresso. Além disso, essa prática evidencia também a progressiva desinstitucionalização do cuidado em saúde mental, no intuito de promover um cuidado em liberdade e focado em auxiliar o paciente a potencializar-se, engendrar o próprio desejo em novas maneiras de relacionar com o corpo social, fora da lógica dominante e puramente adaptacionista. (Gruska, 2015).

Jéssica, implicada nesse novo desafio dentro da própria formação, inicialmente se assusta com a primeira experiência com Bárbara, a incapacidade de Jéssica em se abrir e relacionar-se com os outros impede a mesma de estabelecer um vínculo emocional dentro do processo terapêutico, favorecendo assim o rompimento inicial do acompanhamento.

Após uma série de contratempos a relação entre as duas é restabelecida por iniciativa de Bárbara, vemos assim, ao longo do processo do estágio, a aproximação das duas personagens, concomitantemente com um crescimento do apego de Jéssica por Bárbara. A estudante mostrava finalmente possuir alguma amizade e criar rachaduras na própria casca que criou ao longo de sua vida, descobrir algo na vida que escapava à exaustiva rotina que levava, a abrir-se com um outro, enfim, assustar com uma vida que apesar dos pesares, possuía rosto de vida, cores de vida.

Vemos esse contraste até mesmo no apartamento das duas personagens, o de Jéssica, escuro, mantinha o essencial para sobrevivência, uma vida de subsistência que ao mesmo tempo que refletia a sua condição social, refletia o seu interior. Em contrapartida, o apartamento de Bárbara possui todas as cores que poderia possuir, talvez, até mesmo cores de mais para algumas pessoas. De acordo com Gonçalves (2014) a organização da casa, como morada do corpo, reflete em algum nível, a organização da subjetividade do corpo que vive nela.

O processo do acompanhamento é marcado pela inexperiência prática e teórica da Jéssica, representada ao longo do filme pelo papel dela nas supervisões e pelos atos dela nas tentativas de firmar o vínculo, porém, além disso, é reforçado pela personagem da supervisora a importância da terapia pessoal no decorrer do estágio relacionado ao cuidado e acompanhamento de Bárbara, fator esse negligenciado pela estudante. O corpo e a mente tanto de psicólogos, tanto de qualquer área afim no cuidado em saúde mental são seus principais instrumentos de trabalho, um cuidado nesse cenário não se sustenta sem essencialmente demandar de cuidados e investimento do próprio profissional consigo mesmo (Kichler, 2014).

Referencias:

Banerjee D, Varshney P, Vajawat B. "Guarding the Gatekeepers": Suicides among Mental Health Professionals and Scope of Prevention, A Review. Psychiatry Res. 2020 Dec;294:113501. doi: 10.1016/j.psychres.2020.113501. Epub 2020 Oct 8. PMID: 33065373; PMCID: PMC7543698.

Gonçalves, T. M. (2014). Habitar: A casa como contingência da condição humana. Revista Invi, 29(80), 83-108.

Gruska, V; Dimenstein, M. (2015). Reabilitação Psicossocial e Acompanhamento Terapêutico: equacionando a reinserção em saúde mental. Psicologia Clínica, 27(1), 101-122.

Kichler, G. F., Serralta, F. B. (2014). As implicações da psicoterapia pessoal na formação em psicologia. Psico, 45(1), 55-64.

Lancetti, A. (2016). Clínica peripatética (1ª ed.). Hucitec. ISN 978-85-271-0711-2



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Película:Por que Você não Chora?

Título Original:Por que Você não Chora?

Director: Cibele Amaral

Año: 2020

País: Brasil

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