Universidade Federal de Pelotas
Resumen:
A série Perdendo o Juízo, criada por Jaime Olías, Javier Holgado e Susana López Rubio, apresenta a trajetória de Amanda Torres, uma advogada que vive o ápice de sua carreira, sendo exaltada principalmente pela sua competência profissional, cuja vida sofre uma transformação após vivenciar uma crise relacionada ao Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) durante um julgamento. A história inicia a partir de um momento de intensa vulnerabilidade, após a perda de uma gestação, mostrando como um acontecimento inesperado pode alterar sua imagem. Diante desse momento, a série desloca seu foco do ambiente jurídico para a subjetividade de Amanda, revelando seu verdadeiro “eu” mostrando momentos de compulsão, necessidade de controle e sofrimento psíquico. O TOC é apresentado como uma condição marcada por obsessões e compulsões que podem gerar sofrimento significativo e interferir na qualidade de vida. A obra consegue desconstruir o conceito de que o toque é apenas compulsão e manias, mas ele os relaciona com a ansiedade e tentativa de lidar com incertezas. Além disso, a série possibilita uma reflexão ética sobre a forma como pessoas em sofrimento mental são percebidas, frequentemente reduzidas ao diagnóstico e afastadas de suas capacidades e histórias.
Palabras Clave: Trabalho | Diagnóstico | Compulsivo | Ocupação
Losing Your Mind: Life Beyond the Diagnosis
Abstract:
The series Losing the Judgment, created by Jaime Olías, Javier Holgado and Susana López Rubio, presents the trajectory of Amanda Torres, a lawyer who lives the peak of her career, being exalted mainly by her professional competence, whose life undergoes a transformation after experiencing a crisis related to Obsessive-Compulsive Disorder (OCD) during a trial. The story begins from a moment of intense vulnerability, after the loss of a pregnancy, showing how an unexpected event can change your image. Given this moment, the series shifts its focus from the legal environment to Amanda’s subjectivity, revealing her true "I" showing moments of compulsion, need for control and psychic suffering. OCD is presented as a condition marked by obsessions and compulsions that can generate significant suffering and interfere with the quality of life. The work manages to deconstruct the concept that touch is just compulsion and manias, but it relates them to anxiety and attempt to deal with uncertainties. In addition, the series allows an ethical reflection on the way people in mental suffering are perceived, often reduced to diagnosis and removed from their abilities and stories
Keywords: Work | Diagnosis | Compulsive | Occupation
Introdução
A série espanhola Perdendo o Juízo lançada no ano de 2025, criada por Jaime Olías, Javier Holgado, Susana López Rubio acompanha Amanda Torres, uma advogada reconhecida por sua competência profissional que vê sua trajetória ser interrompida após uma crise de transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) durante um julgamento. Nesse momento, logo após a descoberta da perda de sua gestação, Amanda entra no tribunal com a ideia de lidar com suas questões particulares após realizar seu trabalho, mas em certo momento, a sequência de batidas do milhete que a Juíza utiliza para impor ordem ao tribunal, acaba sendo gatilho para um crise, nisso, Amanda “avança” em direção a juíza, de forma que tenta arrancar o objeto de sua mão, diante desse evento, ela acaba sendo retirada por seguranças do tribunal, de forma que sua reputação que antes era considerada impecável, cai num limbo de exposição. A partir desse acontecimento, a narrativa desloca seu interesse dos tribunais para o sujeito que habita por trás da imagem de sucesso, colocando em cena as fragilidades que costumam permanecer invisíveis. Após o ocorrido, Amanda se encontra reclusa, se muda para uma casa que atende as suas demandas e a sua necessidade de controle, diante do rompimento de seu casamento e logo após, sendo retirada da empresa em que era sócia com seu ex-cônjuge, ela se vê em completa ausência de autonomia, de certa forma, Amanda é acoada pela sociedade e resumida ao TOC. Segundo Yeniceli Turk, Celik Turan e Abaoglu (2024), o Transtorno Obsessivo-Compulsivo é um transtorno neuropsiquiátrico caracterizado por compulsões (necessidade de comportamentos repetitivos) e pensamentos indesejados (obsessão) de forma que provocam ansiedade e evitação. A OMS (Organização Mundial da Saúde) considera o TOC um dos transtornos mais incapacitantes, pois atinge diretamente a qualidade de vida. É uma das doenças psiquiátricas mais comuns e pode causar grandes prejuízos quando não tratada. Além da representação dos sintomas e conflitos vividos pelos personagens, é importante compreender o TOC como uma condição de saúde mental que possui impactos significativos na vida dos indivíduos. Segundo Torres e Lima (2005), estudos epidemiológicos indicam que o transtorno obsessivo-compulsivo apresenta uma prevalência aproximada de 1% na população em determinado período e de 2% a 2,5% ao longo da vida, demonstrando que não se trata de uma condição rara, mas frequentemente deixada de lado. Neste quesito, a série dialoga com a obra sobre TOC, que descreve o transtorno como marcado por obsessões intrusivas e compulsões repetitivas, frequentemente acionadas na tentativa de reduzir a ansiedade e recuperar uma sensação de controle (artigo do google books.). Amanda se vê em um momento de “ápice” de sua doença, onde se torna intolerante ao toque, notando isso, busca mesmo que de forma resistente, auxílio terapêutico, onde realiza sessões semanais com sua psicóloga. Além do foco no drama judicial, a série enfatiza e aponta problemas da relação contemporânea com o desempenho e a produtividade. Amanda construiu sua identidade a partir da eficiência, do controle e do reconhecimento social, e foi reduzida ao seu diagnóstico. Um diagnóstico de saúde mental por muitas vezes pode influenciar em como a pessoa é vista socialmente. Após a crise vivenciada por Amanda, a forma como os outros à enxergam é claramente alterada, antes da crise, Amanda era reconhecida por sua competência, trajetória profissional e intelectualidade, depois do incidente, ela passa a ser identificada pelo seu transtorno obsessivo-compulsivo, como se sua história fosse baseada unicamente nesse momento de sofrimento psíquico. Essa representação permite perceber como o diagnóstico possui uma função específica na área da saúde, pois ele possibilita a compreensão dos sintomas e o direcionamento de formas de cuidado, porém é de extrema importância a compreensão do sujeito em sua totalidade, não apenas reduzi-lo a uma característica . Amanda continua sendo a mesma pessoa que era antes de ter seu diagnóstico exposto a sociedade, possui desejos, capacidades e experiências. Quando o sintoma é colocado em exposição, aquilo que sustentava sua posição de poder entrar em colapso. A questão que a série propõe não é apenas a convivência, mas quem alguém pode ser quando já não consegue responder às expectativas que ordenaram sua existência.
Desenvolvimento
Torres e Lima (2005) afirmam que o transtorno não se resume a “manias”, mas a um ciclo em que a necessidade de certeza alimenta novas verificações, novos rituais e, muitas vezes, mais sofrimento O TOC não aparece apenas como uma condição clínica. Ele se caracteriza como uma forma de viver a vida, de forma que se torna necessário desapegar do controle total das situações. Os rituais, as repetições e a necessidade de ordem mostram um meio constante de lidar com a incerteza. Neste quesito, a série permite que o espectador pense sobre como cada sujeito lida consigo mesmo e suas angústias. Ao decorrer da série, a protagonista passa a ser vista pelos outros através de seu diagnóstico, como se toda a sua trajetória fosse resumida ao único momento em que se evidenciou uma crise. Ao longo dos episódios, observa-se que: Amanda deixa de buscar o retorno à imagem idealizada que possuía anteriormente e passa a construir novas formas de relação consigo mesma e com os outros. Diante da visão da Terapia Ocupacional, é possível analisar como o sofrimento mental interfere nas inúmeras áreas da vida cotidiana da personagem. O transtorno vai além de afetar seus pensamentos e comportamentos, ela gera alterações em seus papéis sociais, suas relações e suas ocupações. A Terapia Ocupacional compreende o sujeito para além da doença, considerando suas atividades significativas, sua história, seu contexto e sua participação social, tende a ter um olhar totalmente humanizado que desfoca a presença de transtornos. Dessa forma, o objetivo do cuidado não deve ser apenas fazer com que a pessoa deixe de apresentar determinados sintomas, mas ajudá-la a reconstruir possibilidades de autonomia e inserção social. Na série, observa-se que Amanda enfrenta uma “quebra” de sua rotina e em sua maneira de se perceber. Ela precisa alterar e reorganizar sua vida diante de perdas pessoais e profissionais, construindo novas formas de existir. Esse fato nos leva a atuação da Terapia Ocupacional em saúde mental, que busca compreender como as condições emocionais e sociais influenciam o cotidiano do indivíduo. Assim, a narrativa mostra ao espectador que a recuperação não significa necessariamente voltar a ser quem era antes, mas construir novos caminhos possíveis, respeitando limites, as subjetividades e vontades .A série também permite uma discussão ética sobre a forma como o cuidado é construído diante do sofrimento psíquico. Muitas vezes, pessoas com transtornos mentais são vistas a partir da necessidade de tratamento, sendo a maioria das vezes medicamentosos, e, como se o objetivo principal fosse eliminar comportamentos não considerados comuns para a sociedade. Entretanto, um cuidado ético exige compreender o sentido desses comportamentos para o sujeito. No caso de Amanda, seus rituais não são retratados como simples escolhas, mas como formas encontradas para lidar com suas angústias. Ao compreender isso, é possível olhar para ela não como alguém que precisa apenas “tratar” uma doença e impedir os comportamentos que ela traz, mas como uma pessoa que necessita de escuta ativa e qualificada, acolhimento e inclusão na sociedade. A relação terapêutica, não deve ser reduzida somente a técnicas ou procedimentos, mas em uma relação construída através da escuta e pela compreensão da subjetividade. O profissional precisa enxergar que cada pessoa possui uma história individual, e a partir disso compreender que não existe uma receita para o atendimento, mas sim uma adaptação para cada sujeito. A ética do cuidado diante da situação abordada pela série, envolve reconhecer Amanda como protagonista de sua própria trajetória, valorizando sua autonomia e suas escolhas, ao invés de definir sua vida apenas a partir do diagnóstico clínico.
Conclusão
A série “Perdendo o Juízo" vai além de retratar o Transtorno Obsessivo-Compulsivo como um transtorno mental e convida o público a refletir sobre questões relacionadas à identidade, vulnerabilidade, preconceito e cuidado. Ao acompanhar a trajetória de Amanda Torres, torna-se evidente que o sofrimento psíquico não pode ser compreendido apenas pela presença de sintomas, mas também pelas notórias transformações que existem na vida do sujeito, como ele se relaciona consigo mesmo, com seus familiares, seus amigos e com suas ocupações. A história evidencia que, muitas vezes, a sociedade reduz pessoas com transtornos mentais ao seu diagnóstico, desconsiderando, de certa forma, a sua humanidade e menosprezando sua capacidade em todas as áreas. Sob a perspectiva da Terapia Ocupacional, a série explora como o adoecimento interfere significativamente na participação social, na autonomia e no desempenho dos papéis ocupacionais. Amanda perde espaços de grande importância na sua vida, como o trabalho, que constituía grande parte da sua rotina, parte de sua rede de apoio após a separação conjugal e a imagem que havia construído de si mesma, que a fazia sentir-se validada. Entretanto, ao longo da narrativa, percebe-se que sua recuperação não está relacionada ao retorno da vida anterior, mas à construção de uma nova vida, uma nova rotina e a uma nova versão de si, que consegue principalmente se aceitar, com suas próprias subjetividades. Além disso, a série promove uma importante reflexão ética sobre o cuidado em saúde mental. Mais do que buscar a eliminação dos sintomas, torna-se necessário reconhecer o sujeito em sua totalidade, compreendendo além de seus sintomas, mas sim seu contexto de vida, desejos e personalidade. O cuidado ético impõe a necessidade de escuta qualificada, respeito à autonomia e acolhimento, permitindo que a pessoa participe ativamente de seu processo de reabilitação. Dessa forma, “Perdendo o Juízo” contribui para desconstruir preconceitos relacionados ao Transtorno Obsessivo-Compulsivo e amplia o debate sobre saúde mental, colocando em evidência que o sofrimento psíquico faz parte da vivência humana e não deve definir a identidade de ninguém. Ao apresentar uma protagonista que aprende a conviver com suas características que por muitas vezes foram escondidas e a reconstruir sua trajetória, a série reforça a importância de um olhar humanizado, interdisciplinar e centrado na pessoa, princípios fundamentais para a atuação ética dos profissionais de saúde e, especialmente, da Terapia Ocupacional.
Referencias:
Torres, A. R., & Lima, M. C. P. (2005). Epidemiologia do transtorno obsessivo-compulsivo: uma revisão. Revista Brasileira de Psiquiatria, 27(3), 237–242. https://doi.org/10.1590/S1516-44462005000300015
NOTAS
FORUM
Película:Perdiendo el juicio (Perdendo o Juízo)
Título Original:Perdiendo el juicio
Director: Pablo Guerrero, María Togores, Jaime Olías
Año: 2025
País: España
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