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Arte, loucura e resistência: Nise: o Coração da loucura

por Fagundes Mendes, Caroline, Pieper Bortoluzzi, Júlia

Universidade Federal de Pelotas

Resumen:

O filme Nise: O Coração da Loucura, dirigido por Roberto Berliner, revisita o Brasil dos anos 1940 para narrar a experiência transformadora da psiquiatra Nise da Silveira. Após ser libertada da prisão, Nise recusa práticas violentas como eletrochoques e lobotomias, implementando terapias ocupacionais baseadas em arte, expressão e cuidado humanizado. Sua abordagem rompe com o paradigma biomédico dominante, ao valorizar a criatividade como forma de acesso à subjetividade de pacientes psiquiátricos, historicamente silenciados. A narrativa destaca como o ateliê de pintura e escultura se torna espaço de liberdade, ressignificando a loucura não como déficit, mas como potência expressiva. Essa perspectiva dialoga com experiências pioneiras no Brasil, como o trabalho de Osório Cesar e o evento “Mês das Crianças e dos Loucos”, que aproximaram arte, psiquiatria e educação, questionando fronteiras entre normalidade e patologia. Assim, o filme propõe uma reflexão ética sobre o cuidado em saúde mental, convocando o espectador a rever o poder da empatia, do olhar e da escuta no campo psiquiátrico. Mais que uma cinebiografia, trata-se de um convite a compreender a arte como linguagem de cura e resistência.

Palabras Clave: Hospital psiquiátrico | Terapia ocupacional

Art, Madness, and Resistance: An Analysis of The Film Nise: The Heart Of Madness

Abstract:

The film Nise: The Heart of Madness, directed by Roberto Berliner, revisits 1940s Brazil to portray the transformative work of psychiatrist Nise da Silveira. After being released from prison, Nise rejects violent methods like electroshock and lobotomy, implementing occupational therapies based on art, expression and humanized care. Her approach breaks with the dominant biomedical paradigm by valuing creativity as a way to access the subjectivity of psychiatric patients, historically silenced. The narrative shows how the painting and sculpture studio becomes a space of freedom, redefining madness not as deficit but as expressive potential. This perspective dialogues with pioneering Brazilian experiences, such as Osório Cesar’s work and the 1933 “Month of the Children and the Insane”, which brought together art, psychiatry and education, questioning boundaries between normality and pathology. Thus, the film proposes an ethical reflection on mental health care, inviting the audience to rethink the power of empathy, attentive listening and creative freedom. More than a biopic, it is an invitation to understand art as a language of healing and resistance.

Keywords: Psychiatric hospital | Occupational therapy


Introdução

O cinema é um instrumento potente para tensionar temas éticos e sociais. Nise: O Coração da Loucura (2015) apresenta uma narrativa baseada em fatos reais que ilumina a trajetória de Nise da Silveira, médica psiquiatra que questionou práticas manicomiais tradicionais no Brasil dos anos 1940. O objetivo deste trabalho é analisar como o filme representa a relação entre arte, loucura e cuidado, dialogando com a história da psiquiatria e propondo reflexões sobre saúde mental, dignidade e direitos humanos. Ao trazer para a tela essa experiência singular, o filme também se insere como obra de resistência e memória, ao convidar o público a revisitar páginas esquecidas da história da saúde mental no Brasil.

Contexto histórico e biográfico

Nise da Silveira foi uma das primeiras médicas a confrontar abertamente as técnicas violentas de contenção de pacientes, como eletrochoques e lobotomias. Logo ao retornar ao Hospital Psiquiátrico Pedro II, ela participa de uma reunião com outros médicos e recusa, de forma firme e pública, a aplicação desses métodos, alegando sua natureza desumana. Essapostura provoca estranhamento entre os colegas e resulta em seu afastamento das atividades clínicas. Em um período de forte influência do modelo biomédico, a médica é então transferida para o setor de Terapia Ocupacional, considerado marginal dentro da hierarquia hospitalar. Longe de se abater, Nise transforma esse setor em um laboratório de experimentação afetiva e estética.

No longa, essa transformação ganha corpo através das cenas no pavilhão desativado, que Nise reabre como ateliê, contrariando ordens superiores. Ali, personagens como Adelina, Raphael e Emygdio emergem como exemplos da potência criativa revelada. A convivência entre internos, profissionais e voluntários, retratada por Berliner, mostra como o espaço físico e afetivo foi reconstruído, tornando o hospital não apenas um local de contenção, mas também de produção artística viva.

O filme também destaca a importância do trabalho interdisciplinar, reunindo voluntários, estagiários e artistas que, junto de Nise, formaram uma rede de apoio afetivo e criativo, reforçando a potência coletiva do cuidado em saúde mental.

A escolha de terapias ocupacionais, como pintura, escultura e jardinagem, rompeu a lógica de punição e isolamento vigente. Inspirada em referências como Osório César, que já estudava a arte de internos no Juqueri, Nise compreendeu a arte como forma de comunicação simbólica, elemento terapêutico e campo de investigação sobre a mente humana. Essa perspectiva também dialoga com o “Mês das Crianças e dos Loucos” (1933), marco que reconheceu a produção artística de pacientes psiquiátricos e de crianças como expressão legítima, aproximando psiquiatria, educação e cultura. Com o tempo, as obras produzidas pelos pacientes começam a ocupar as paredes do ateliê e a chamar a atenção pela sua força expressiva. Nise então organiza uma exposição interna, convidando médicos e visitantes do hospital. A reação de surpresa e respeito por parte de alguns colegas sinaliza o início de uma mudança de percepção sobre os internos, que deixam de ser vistos apenas como portadores de doença e passam a ser reconhecidos como sujeitos criativos. O filme reforça esse ambiente coletivo ao dar destaque para essas obras, acompanhadas pela trilha sonora de Jacques Morelenbaum, que costura delicadeza e força nas imagens. A escolha estética de Berliner com a paleta de cores vibrantes no ateliê contrastando com os tons frios do hospital e a delicada trilha sonora de Morelenbaum reforçam simbolicamente a passagem do enclausuramento para a expressão, traduzindo visualmente a reumanização da loucura.

Ética, cuidado e resistência

O filme evidencia o enfrentamento institucional vivido por Nise, que precisou lidar com resistência de colegas e diretores, mas persistiu na defesa de um cuidado centrado na dignidade e na escuta. Essa postura reflete um posicionamento ético que ainda hoje inspira práticas de saúde mental mais humanizadas, como a luta antimanicomial. A obra também convoca o espectador a refletir sobre a arte não apenas como terapia, mas como possibilidade de resistência e denúncia das violências praticadas em nome da “cura”.

O roteiro também evidencia as tensões entre Nise e os demais médicos, simbolizadas nas reuniões onde ela é isolada por colegas que a veem como ameaça à ordem institucional. Ao mesmo tempo, o vínculo dela com os pacientes é filmado em detalhes de gestos, trocas de olhares e silêncios, que revelam a dimensão ética de uma escuta que humaniza. Nesse contexto, um dos momentos mais simbólicos é a conquista do reconhecimento externo: as obras dos pacientes são levadas ao Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM), onde são recebidas como produções artísticas autênticas. A emoção dos pacientes ao verem suas criações valorizadas em um espaço público e cultural representa uma reconfiguração profunda das fronteiras entre loucura e arte, exclusão e cidadania.

Considerações finais

Nise: O Coração da Loucura ultrapassa o formato de cinebiografia e se consolida como importante documento histórico e cultural. A narrativa resgata memórias silenciadas, reconhece a criatividade como força transformadora e aponta caminhos para práticas de cuidado mais éticas e inclusivas. Assim, o filme reafirma a urgência de revisitar a história da psiquiatria para romper paradigmas opressores e valorizar o potencial emancipador da arte. Essa reflexão se mantém atual e se conecta à luta antimanicomial brasileira, consolidada na Lei 10.216/2001, que defende o cuidado em liberdade e a inclusão social de pessoas em sofrimento psíquico. A narrativa de Berliner reafirma a arte como possibilidade de reumanizar a loucura, propondo uma memória coletiva que ainda hoje desafia o cuidado em saúde mental.

Referencias:

Berliner, Roberto (Direção). Nise: O Coração da Loucura. [Filme]. Brasil: TvZero, 2015.

Bastide, Roger; Cesar, Osório. Pintura, loucura e cultura. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, v. 10, n. 1, p. 131-145, mar. 2007.

Amin, Raquel; Reily, Lucia. O mês das crianças e dos loucos: um olhar sobre a exposição paulista de 1933. ARS, São Paulo, ano 11, n. 22, p. 123-135.



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Película:Nise: El corazón de la locura

Título Original:Nise: O Coração da Loucura

Director: Roberto Berliner

Año: 2015

País: Brasil

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