Universidade Federal de Pelotas
Resumen:
Este ensaio tem por intuito desenvolver uma discussão sobre o conceito de “acaso” na obra Magnólia de Paul Thomas Anderson, analisando seu funcionamento e os argumentos expostos dentro da obra cinematográfica com outras concepções sobre o acaso, principalmente dentro da filosofia espinosista, trazendo assim, essa discussão para os campos da clínica e os atravessamentos do acaso nesse território existencial, por meio de uma perspectiva ético-estético-política.
Palabras Clave: acaso | clínica | ética
Essay on Chance and Its Journeys in The Clinic
Abstract:
This essay aims to develop a discussion on the concept of “chance” in Paul Thomas Anderson’s film Magnolia, analyzing its functioning and the arguments presented within the cinematographic work with other conceptions about chance, mainly within Spinozist philosophy, thus bringing this discussion to the clinical field and the crossings of chance in this existential territory, through an ethical-aesthetic-political perspective.
Keywords: chance | clinic | ethics
O filme Magnólia de Paul Thomas Anderson apresenta para o telespectador uma série de histórias e vidas que acontecem em Los Angeles, e como todas estão interconectadas em algum nível, seja por meio de laços de sangue, por encontros inesperados dentro da cidade ou participações em um programa de televisão, ligadas espacial ou temporalmente fornecendo assim material para a ligação dos personagens uns com os outros. Fator esse reforçado pela flor homônima ao filme que tem suas pétalas ligadas pelo mesmo gineceu, sendo a representação visual dessas ligações.
No começo do longa-metragem temos a apresentação de três relatos jornalísticos pela voz de um narrador onisciente, ambos atravessados pela morte e por uma assustadora coincidência em sua construção. Assustadora no sentido de que coincidências tão específicas não podem ser um mero acaso, como diz o autor de maneira implícita, essas coisas acontecem sempre, e como não podem ser por acaso, devem ser obras de algo.
Além disso, principalmente no início e ao longo da trama, aparece repetidamente referências ao número “82” algo, que como tudo que o filme tenta passar, não é por acaso. Este número refere-se a passagem bíblica presente em Êxodo 8.2: “E se recusares deixá-lo ir, eis que ferirei com rãs todos os teus termos.”, Este fato relaciona-se ao responsável dos acasos ao longo da trama, Deus e a sua punição divina (Valenzuela, [s.d]).
Esta passagem se relaciona ao clímax final do filme, inesperadamente uma chuva de sapos intervém na história de todos os personagens simultaneamente, de maneira punitiva, como no caso da personagem Linda, que ao ser transportada para o hospital em uma ambulância, sofre um acidente no percurso. Porém, também intervém recompensando o personagem Jim, devolvendo a sua arma que foi perdida ao longo da trama.
O fator que difere o tratamento divino para com os dois personagens é o caráter moral que ambos carregam, Linda é uma mulher adúltera e mesquinha, que somente se arrepende quando o marido está no fim da própria vida, em contrapartida, Jim é um policial correto e exacerbadamente humilde e ingênuo, apresenta uma certa pureza, uma moral ascética, a mesma fundada aos moldes da doutrina judaíco-cristã. (Nietzsche, 2020)
Porém, para além disso, a chuva de sapos apresenta-se como uma catarse coletiva, tanto no sentido aristotélico do termo, tanto em seu sentido freudiano, os personagens passam coletivamente por eventos que causados somente pela intervenção divina, permitindo-os reelaborarem seus traumas, ab-reagi-los em algum nível, permitindo-os assim tomarem novamente as rédeas da própria existencial, muito similar a um processo sofrido dentro da clínica. (Freud, 2006)
Entretanto, essa interpretação se encontra fundada em uma definição de Deus que o torna imagem e semelhança do homem, alguém com vontades e desejos, que delibera sobre os acontecimentos terrenos, essa visão de Deus somente se mantém caso consideremos que ele não é perfeito. Pois, se tudo decorre de Deus, e Deus mesmo assim permite que aconteçam coisas dignas de serem recriminadas e punidas por si mesmo, parafraseando Espinosa, está definição é absurda. (Espinosa, 2009)
Ainda de acordo com De Espinosa (2009) nada é contingente, somente concebemos coisas como contingentes ou possíveis por meio da deficiência do nosso intelecto, fato este que se apresenta argumento aliado da discussão sobre o acaso dentro do filme, porém, as coisas acontecem necessariamente da existência de Deus, e não por meio de alguma decisão divina. Presente na proposição 33. da Ética I: “As coisas não poderiam ter sido produzidas por Deus de nenhuma outra maneira, nem em qualquer outra ordem que não naquelas em que foram produzidas” reforça a ideia apresentada anteriormente.
Essa nova concepção de Deus sive natura nos permite pensar um exercício ética para a clínica, pois, uma clínica fundamentada em preceitos morais transcendentais como o bem e o mal necessariamente se vê presa a falácia de que, como o personagem Jim em Magnólia, caso façamos o bem, de acordo com a moral cristã decadente, teremos uma prometida salvação, argumento esse utilizado para fundamentar até mesmo a repressão de nossos próprios desejos, responsável por nos despotencializar coletivamente.
Essa concepção está atrelada a necessidade de que a clínica seja pensada essencialmente em questões éticas, estéticas e políticas, relacionadas também ao desenvolvimento da autonomia do paciente, atravessada principalmente pelo conceito de cuidado de si, de Michel Foucault como norteadora, priorizando assim, uma clínica da autonomia (Penido, 2018).
Uma clínica pensada em funções transcendentais, em uma espécie de bondade constituída, associada a ideia da salvação divina necessariamente produz uma proposição que afeta o processo de constituição da subjetividade, está proposição é de que “caso eu seja uma pessoa boa, coisas boas irão acontecer comigo” e além desta, proposições próprias de uma lógica transcendental estabelecem um sistema de valor irreal e violento, que atravessa a experiência de todos os indivíduos que vivem em sociedade.
Portanto, o filme permite essa maneira de análise, seus personagens não sobreviveram a uma redenção divina em formato de uma chuva de sapos, ambos ao longo de toda a trajetória da trama estavam apropriando-se de sua própria vida em algum nível, seja ao dar a chance para um novo amor, arrepender-se dos erros do passado, enfrentar um pai negligente e autoritário, ou até mesmo perdoando um pai negligente e moribundo no fim de sua vida.
O filme não é sobre estar a mercê de uma vontade divina, é na verdade o seu contrário em muitos níveis, é sobre estar no controle da própria existencial em algum nível, é sobre organizar seus encontros da maneira que podem, sobre perseverar na vida, portanto, o momento da chuva de sapos é o momento que no nosso processo clínico, finalmente temos autonomia, seja sobre o nosso desejo, seja sobre a nossa vida.
Referencias:
Bíblia Online. (2025). Êxodo 8 – Almeida Corrigida Fiel. https://www.bibliaonline.com.br/acf/ex/8
Espinosa, B. de. (2009). Ética (T. Tadeu, Trad.). Autêntica.
Freud, S. (2006). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: Volume II – Estudos sobre a histeria (1893–1899). Imago Editora.
Nietzsche, F. (2020). Sobre a genealogia da moral: um escrito polêmico. L&PM Pocket.
Penido, C. M. F., & Romagnoli, R. C. (2018). Apontamentos sobre a clínica da autonomia na promoção da saúde. Psicologia & Sociedade, 30, e173615. https://doi.org/10.1590/1807-0310/2018v30173615
Valenzuela, S. T., & Davino, G. (2019). Magnólia, de Paul Thomas Anderson: a tragédia cotidiana e os mitos. In Histórias de roteiristas: narrativas difusas em suportes sensíveis (Vol.?1, pp.?320–329).
NOTAS
FORUM
Película:Magnolia
Título Original:Magnolia
Director: Paul Thomas Anderson
Año: 1999
País: Estados Unidos
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