Inicio > Congresos Online > Congreso Online 2025 > Homem com H > Audácia, censura e perdão: a história de Ney Matogrosso

Audácia, censura e perdão: a história de Ney Matogrosso

por Arend, Victoria, Barbosa Goes, Isadora

Universidade Federal de Pelotas

Resumen:

A cinebiografia “Homem com H” é contada através da linguagem cinematográfica de Esmir Filho, que promove uma imersão nas questões políticas, afetivas e de liberdade expostas. A obra percorre desde a infância de Ney de Souza Pereira, a qual é marcada por repressões familiares, até sua consagração nos palcos, exaltando sua luta contra a censura e os padrões morais impostos pela ditadura militar e sociedade. Jesuíta Barbosa dá vida ao protagonista, o qual também experimenta uma importante reconciliação com seu pai, marcada pela audácia de ser autêntico. Mais do que a história de um artista, a produção revela o impacto da arte como resistência e como espaço de libertação.

Palabras Clave: Autenticidade | Liberdade | Censura | Família

Audacity, Censorship and Forgiveness: The Story of Ney Matogrosso

Abstract:

The biopic “Man with H” is told through the cinematographic language of Esmir Filho, which promotes an immersion in the political, emotional and freedom issues exposed. The work goes from Ney de Souza Pereira’s childhood, which was marked by family repression, to his consecration on stage, highlighting his fight against censorship and the moral standards imposed by the military dictatorship and society. Jesuíta Barbosa gives life to the protagonist, who also experiences an important reconciliation with his father, marked by the audacity to be authentic. More than the story of an artist, the production reveals the impact of art as resistance and as a space for liberation.

Keywords: Authenticity | Freedom | Censorship | Family


Na obra cinematográfica “Homem com H”, dirigida por Esmir Filho e produzida pela Paris Filmes, acompanhamos de modo sensível e real, a trajetória de um ilustre artista brasileiro. Ney de Souza Pereira, mais conhecido como Ney Matogrosso, ou ainda, “aquele que ousou ser livre”; é um grande cantor, dançarino, diretor e intérprete brasileiro. No filme, pode-se vislumbrar esse comprometimento em contar uma história verdadeira, de um ser humano real que carrega suas intensas vivências e ideias.

O diretor é graduado em cinema pela FAAP, iniciou sua jornada com curtas, e após seguiu para a produção de longas também. Marcou sua presença em diversos festivais, ganhando prêmios e representando o Brasil em âmbito mundial. Em seus trabalhos, há exibições de traços que se encaixam muito com a trajetória do artista Ney Matogrosso, indo desde pulsões do corpo à relação de pai e filho. Em uma entrevista para a “Fundação Perseu Abramo”, Esmir Filho conta como foi o processo de traduzir a história do afrontoso cantor para as telas do cinema, e em mesmo instante o quanto estava empolgado para esse desafio.

Um traço do cineasta que acabou trazendo à história uma fluidez e imersão ainda mais satisfatórias, é o fato de ser um recorte emocional; ele segue a linha temporal, mas não se sente rupturas no enredo, pois se emerge em sentimentos profundos. Narrando desde a conturbada infância até o show mais recente em São Paulo, no ano de 2024, se constrói essa linha de desejos e luta por liberdade. No desenvolver da trama, tornam-se explícitas questões de performances sociais de gênero, interligando-as ao contexto político da época e as expectativas familiares.

A Política da Censura imposta à arte

A construção do personagem principal foi feita em detalhes, traçando aspectos de sua personalidade desde as primeiras cenas da infância. Cativado por músicas, danças e desenhos, o desejo de ser artista começa a florescer. Todavia, contrapondo-se a esse ímpeto, há a repressão de um pai militar e rígido, que acusa não aceitar ter filho artista em sua família. O personagem de Ney criança muitas vezes é exposto de maneira acuada, silenciosa e com um olhar vago, repleto de dúvida e medo. No corte temporal que o mostra como jovem adulto, sendo encenado por Jesuíta Barbosa, nota-se uma exaustão causada pela incompreensão e julgamento no ambiente familiar, o que o motiva a sair de casa.

A história leva o público a adentrar a aeronáutica do Rio de Janeiro, cenário onde pode-se presenciar uma mistura de autorreflexão acerca de questões como sexualidade e identidade, juntamente à rigidez dentro daquele contexto militar. Após fim do serviço, inicia-se no coral um importante arco, o de descoberta da brilhante voz. Entre cantos, encenações e amizades, a narrativa o induz a participação da banda de rock brasileiro “Secos e Molhados”, período onde o protagonista eleva sua carreira velozmente.

Vemos na construção de Ney esse sonho de ser um artista completo, quebrando estigmas e tabus na busca de expressar-se; utilizar dessa janela da alma criada pela arte, para desreprimir tudo que teve de esconder. Quadro por quadro, sente-se a construção de uma intimidade entre o palco e o artista, além de acompanhar suas dúvidas sobre a carreira e de não render-se ao esperado. As cenas preenchem-se com a recriação de performances envolventes de diversos hits brasileiros, que evidenciam a androginia expressada pelo corajoso cantor.

Tal fato demonstra intenso contraste com o período da época, afinal trata-se dos anos de 1970, onde havia extrema censura oriunda do período militar. Inclusive, há cenas que destacam com um certo humor às tentativas de censurar suas excêntricas performances durante os shows. Afinal, naquela época havia um tipo de censura que era dita como a censura de diversões públicas, que tinha como base a defesa da “moral e bons costumes” em todos os meios de comunicação da época, especialmente no que se referia à expressões artísticas (Soares, 2016).

Essas tentativas de censura, no entanto, nos mostram algo além de um embate artístico: expõem um conflito político-ideológico presente no Brasil dos anos 60 aos anos 80. As correntes conservadoras da sociedade brasileira criavam estigmas para tudo aquilo que se desviasse da regra imposta socialmente pelos militares. As minorias que não se encaixavam no padrão de comportamento autoritário imposto e moralmente aceito eram tidas como inapropriadas (Soares, 2016).

Sendo assim, o personagem de Jesuíta Barbosa, que trouxe com veracidade a estética andrógina e performances com muita sensualidade e provocação, tornou-se uma figura afrontosa quando se refere aos códigos de gênero e moralidade impostos pela ditadura. Não referindo-se apenas aos shows, mas também à música como modo de expressão e autenticidade artística, expressando uma essência pura por meio das letras. A obra, assim o artista Ney Matogrosso, conseguiu extrair os mais profundos sentimentos e despertar uma consciência política, a qual busca entender o conturbado contexto social e político em que a população brasileira da época estava inserida (Melo de Souza et al., 2016).

Conforme aponta Soares (2016, p. 137) “O cantor Ney Matogrosso foi um dos artistas que mais causou inquietação nos censores e na parcela conservadora do país, que tanto se espantavam com o movimento deste corpo desviante naquele contexto”. A partir de tal citação, pode-se refletir o quão intenso fora o impacto do artista que, diante de um horizonte completamente fechado e um contexto que valorizava uma norma politicamente correta, mostrou-se forte e corajoso. Não permitiu-se calar, e nem que calassem uma sociedade inteira; por esse viés, pode-se dizer que o artista revolucionou o modo de se expressar artisticamente.

Diante do exposto, o filme nos mostra que o palco, dentro dessas circunstâncias, tornou-se um microterritório de liberdade do protagonista, que dava voz a tudo aquilo que, fora dali, era sistematicamente reprimido. Mesmo sem focar intrinsecamente na temática da ditadura, o enredo trouxe a questão de maneira sútil, mas crua e real. Abarcado por reflexões familiares, conflitos de equipe de trabalho e até mesmo, em alguns instantes, a dúvida do ator sobre o custo de seu sonho.

Construção de uma relação pai e filho

Como memorado anteriormente, os trechos iniciais expõem essa conflituosa relação entre o personagem principal e seu pai, Antônio. Cenas violentas e tensas são montadas, representando uma repressão e autoritarismo comuns no ambiente familiar; o qual é demonstrado como um cenário sem muita luz e sons. As cicatrizes desse violento vínculo marcam a construção do enredo até seu fim, demonstrando não apenas o desenvolvimento do protagonista, mas do remorso de Antônio também.

Em uma cena emocionante, quando Ney e sua mãe estão cozinhando, o mesmo –já estabelecido em sua carreira solo– admite que a maior autoridade que ele já contrariou foi seu pai. Narrando que muito do que fez foi nesse intuito, como modo de desreprimir a criança que não pôde existir verdadeiramente. Ao se recordar de trechos espalhados pelo filme, e que montam essa reconstrução da relação, vemos o quão importante é esse autoconhecimento do protagonista sobre seus sentimentos, e quanto isso influencia no perdão.

O personagem de Antônio é marcado pelo autoritarismo, possivelmente expresso por sua carreira militar. Desde o início do filme se mostra muito fechado e rígido, afirmando que não aceitaria que seus filhos fossem artistas e que eles deveriam agir como homens. Porém, ao decorrer da história começamos a ver sua redenção. Como por exemplo em uma tocante cena, onde após assistir o show de seu filho Ney, ele encontra-se reflexivo sentando ao lado da vitrola, escutando o disco com os olhos marejados.

A obra constrói essa sensação de um vínculo que se forma e se reforma aos poucos, nas miudezas; nos beijos na bochecha, nas visitas inesperadas, na presença nos shows. O modo em que se constrói o espaço tomado por Ney, a liberdade que ele conquistou, mostra como essa luta trouxe uma liberdade que vai além de si. Vemos que essa sua jornada libertou seu pai também, mostrou-lhe que há outros modos de viver, desde que detenha coragem de quebrar os padrões esperados.

O instante em que, no leito da cama, Antônio pede perdão ao seu filho Ney por não ter sido um bom pai, é o resultado de toda essa jornada construída por detalhes, que por vezes quase invisíveis. É a maneira mais real de expressar uma redenção, uma quebra de seus padrões e comportamentos adquiridos como base que demanda um paciencioso arco. Sendo assim, a sétima arte conseguiu mais uma vez exemplificar com tamanha crueza uma relação de pai e filho; uma relação com expectativas, uma dupla jornada de descoberta e liberdade.

Conclusão

A escolha de contar essa trajetória através do cinema não é neutra, a linguagem cinematográfica é uma ferramenta de resgate histórico, buscando provocar reflexão social. Segundo Melo de Souza et al. (2021), a arte, a partir de todas as suas linguagens, desempenhou papel fundamental como veículo de resistência durante a ditadura. O filme ’Homem com H’ traz essa força ao resgatar a figura de Ney Matogrosso como um ícone da liberdade artística e política. E, principalmente, ao narrar grande parte de sua trajetória com veracidade, onde enxerga-se o impacto de normas opressoras já nas primeiras cenas, vivenciando-se a repressão que o cantor sofreu por seu pai.

Contudo, o roteiro, em meio a tantas lutas, liberdade e reconstruções, conseguiu ainda nos mostrar uma faceta do protagonista diferente do que se esperava, seu lado que só buscava sossego, um pedaço de terra, água, bicho, mato… Viver seus dias sem perder sua essência, mesmo diante desse cenário político agoniante e repressor. A longa metragem compromete-se em contar a história de Ney de Souza Pereira –através da excelente atuação de Jesuíta Barbosa–, porém entende-se que, nas entrelinhas dessa jornada muitas outras histórias foram narradas.

A obra traz reflexão, afetividade e inspiração. Induz a questionar nossa história e entender que ela pode ser barulhenta na mesma medida em que é silenciosa, alegre da mesma maneira que é descontente, que ousa e fala, mas que sabe apenas escutar também. Em 2 horas e 9 minutos muitos questionamentos podem acalentar aquele que assiste, principalmente o que comove a seguir sua essência, ser autêntico e libertar sua singularidade com a audácia de se estar vivo.

Referencias:

Filho, E. (Diretor & Roteirista). (2025). Homem com H. [Filme]. Paris Filmes; Paris Entretenimento. https://www.netflix.com

Melo de Souza, C. N., Araújo, E. G., & Rocha, U. R. (2021). A música como forma de expressão e manifestação contra a ditadura civil-militar no Brasil. Das Amazônias, 4 (1), 26–35. https://periodicos.ufac.br/index.php/amazonicas/article/view/2721

Revista Focus Brasil. (2025, 17 de junho). Esmir Filho conta como foi dirigir ‘Homem com H’, cinebiografia de Ney Matogrosso. Fundação Padre Abrahão (FPABRAMO). https://fpabramo.org.br/focusbrasil/2025/06/17/esmir-filho-conta-como-foi-dirigir-homem-com-h-cinebiografia-de-ney-matogrosso/

Soares, A. da S. (2016). Discursos e representações do corpo durante a ditadura militar no Brasil (1968–1979), (Dissertação de mestrado, Universidade Federal do Rio Grande do Norte). Repositório Institucional UFRN. https://repositorio.ufrn.br/handle/123456789/22118

TV Brasil. (2025, 16 de maio). Sem Censura Especial Ney Matogrosso [Vídeo]. YouTube. https://youtu.be/Am8z7lAsNms



NOTAS




FORUM

moderación a priori

Este foro es moderado a priori: su contribución sólo aparecerá una vez validada por un/a administrador/a del sitio.

¿Quién es usted?
Su mensaje

Este formulario acepta atajos SPIP [->url] {{negrita}} {cursiva} <quote> <code> código HTML <q> <del> <ins>. Para separar párrafos, simplemente deje líneas vacías.




COMMENTS

Message from DIego   » 25 de agosto de 2025 » diegonicolasmarti83@gmail.com 

El film "Hombre con H", más allá de ser una biografía de Ney Matogrosso, se presenta como una invitación a reflexionar sobre la subjetividad, la identidad y la resistencia. La película nos enseña que la audacia de la autenticidad de Ney no es un mero rasgo de personalidad, sino una decisión profunda que transforma su propia vida y la de su entorno.

La historia de Ney Matogrosso nos impulsa a una observación cuidadosa de los detalles, prestando atención a los pormenores de su expresión artística. Su cuerpo andrógino y su voz transgresora, en un Brasil bajo dictadura militar, no son solo elementos estéticos, sino fuerzas internas que rompen con un orden simbólico represivo.
El cine nos muestra cómo la "voz" de Ney, esa sonoridad que emana de un cuerpo que desafía las normas, se convierte en una experiencia que remueve a la sociedad conservadora, pero a la vez, en una fuente de liberación y resistencia. Estamos ante una situación excepcional que nos obliga a repensar los límites de la identidad de género, la libertad de expresión y los mecanismos de censura.

La película, al narrar la lucha de Ney contra la represión familiar y social, y su posterior reconciliación con su padre, nos enseña sobre la evolución del deseo. Su elección de ser auténtico, incluso frente a la humillación y la incomprensión, es una acción que va más allá del amor o la venganza, dándole un nuevo sentido a su vida y a la de quienes lo rodean. Este proceso, construido a través de pequeños detalles y cambios emocionales, demuestra cómo el arte puede ser un espacio de liberación personal y política, permitiendo al sujeto encontrar su propio camino y redefinir su lugar en el mundo. "Hombre con H" nos enseña que la psicología no solo debe estudiar la resistencia, sino también aprender de ella, reconociendo en la ficción un potente motor para el pensamiento y la acción real.



Película:Hombre con H

Título Original:Homem com H

Director: Esmir Filho

Año: 2025

País: Brasil

Otros comentarios del Autor: