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Percepções sobre "Cartas para mim" de Marina Vergueiro

por Cruz Da Silva, Luely, Gonçalves Duarte, Julia, Moreira, Alexa

Universidade Federal de Pelotas

Resumen:

"Cartas para Mim" é um curta-metragem documental dirigido e protagonizado por Marina Vergueiro, uma mulher lésbica que vive com HIV. A obra relata sua jornada pessoal e poética até Cuba, motivada pelos dez anos de seu diagnóstico, em busca de reencontrar Caridad, uma mulher cubana que decidiu se contaminar com o vírus conscientemente. A narrativa é construída a partir de cartas escritas para si mesma, resgatando memórias, desejos e angústias que atravessam sua vivência. O curta destaca a sensibilidade, a autobiografia e o posicionamento político da diretora, convidando à reflexão sobre o diagnóstico, o cotidiano pós-diagnóstico e a vida. Mostra como os estigmas relacionados ao HIV ultrapassam a saúde fisiológica, afetando o lazer, os autocuidados e os vínculos sociais. Aborda ainda o preconceito e a exclusão, evidenciando o sofrimento, o silêncio e a solidão vividos por quem vive com o vírus. A obra propõe escuta, ressignificação e coragem, dando voz às subjetividades silenciadas. O afeto é apresentado como potência de cura, e o preconceito, como uma realidade concreta e negligenciada, impactando diretamente os laços afetivos e a forma como os corpos são percebidos e vividos.

Palabras Clave: HIV | Corpo | Identidade | Subjetividade

Perceptions About "Letters to Me" By Marina Vergueiro

Abstract:

"Cartas para Mim" is a short documentary film directed and starring Marina Vergueiro, a lesbian woman living with HIV. The work recounts her personal and poetic journey to Cuba, motivated by the ten years since her diagnosis, in search of finding Caridad, a Cuban woman who consciously decided to infect herself with the virus. The narrative is constructed from letters written to herself, rescuing memories, desires and anxieties that permeate her experience. The short highlights the director’s sensitivity, autobiography and political positioning, inviting reflection on the diagnosis, post-diagnosis daily life and life. It shows how stigmas related to HIV go beyond physiological health, affecting leisure, self-care and social bonds. It also addresses prejudice and exclusion, highlighting the suffering, silence and loneliness experienced by those living with the virus. The work proposes listening, resignification and courage, giving voice to silenced subjectivities. Affection is presented as a healing power, and prejudice, as a concrete and neglected reality, directly impacting affective bonds and the way bodies are perceived and experienced.

Keywords: HIV | Body | Identity | Subjectivity


"Cartas para Mim" é um curta-metragem documental dirigido e protagonizado por Marina Vergueiro, uma mulher lésbica que vive com HIV. A obra relata sua jornada pessoal e poética até Cuba, motivada pelos dez anos de seu diagnóstico, em busca de reencontrar Caridad, uma mulher cubana que decidiu se contaminar com o vírus conscientemente. A narrativa é construída a partir de cartas escritas para si mesma, resgatando memórias, desejos e angústias que atravessam sua vivência.

O curta destaca a sensibilidade, a autobiografia e o posicionamento político da diretora, convidando à reflexão sobre o diagnóstico, o cotidiano pós-diagnóstico e a vida. Mostra como os estigmas relacionados ao HIV ultrapassam a saúde fisiológica, afetando o lazer, os autocuidados e os vínculos sociais. Aborda ainda o preconceito e a exclusão, evidenciando o sofrimento, o silêncio e a solidão vividos por quem vive com o vírus. A obra propõe escuta, ressignificação e coragem, dando voz às subjetividades silenciadas. O afeto é apresentado como potência de cura, e o preconceito, como uma realidade concreta e negligenciada, impactando diretamente os laços afetivos e a forma como os corpos são percebidos e vividos.

Cartas para Mim” é um curta-metragem documental de 18 minutos dirigido e protagonizado por Marina Vergueiro, lançado no Brasil em 2022. A obra se destaca não apenas por sua estética sensível e narrativa íntima, mas também por ser um forte dispositivo de reflexão sobre os estigmas sociais, a subjetividade da dor e a potência da escuta. O filme ultrapassa os limites tradicionais do documentário ao se posicionar como uma narrativa que entrelaça política, afetividade e ética. Nele, a diretora compartilha sua jornada pessoal como mulher lésbica vivendo com HIV, dez anos após o diagnóstico.

Embora se trate de um curta-metragem, a obra se revela profundamente envolvente ao construir uma trama única e intimista em torno da trajetória da autora. Longe de adotar uma abordagem clínica ou excessivamente informativa, o filme opta por uma estética sensível e contemplativa. A narrativa é conduzida por cartas que a diretora escreve para si mesma, textos que são lidos em voz alta, funcionam como fio condutor da história. Essas cartas criam um espaço seguro onde a diretora revisita traumas, angústias, frustrações e desejos, resgatando da memória episódios marcantes de sua vida. Trata-se de uma escolha narrativa que transforma a experiência pessoal em um gesto de escuta e reconstrução.

O ponto de partida da narrativa começa então, quando a poetisa e diretora Marina Vergueiro viaja a Cuba em busca de Caridad, uma mulher cubana que, ao descobrir-se lésbica e ser rejeitada pela família, decidiu se infectar com sangue contaminado pelo HIV. Impulsionada por essa história que funciona como uma ponte pessoal e representativa, entre duas experiências marcadas pelo HIV. Marina começa a procurar Caridad enquanto revisita seus próprios traumas e desafios em se entregar para o amor.

Essa escolha estética e narrativa é profundamente ética e permite que o filme se torne um território seguro para a fala, para o trauma e para a reconstrução. É uma tentativa de reorganizar o vivido por meio da memória e da palavra. As cartas, além de elemento narrativo, funcionam como ato de cuidado consigo mesma, com a memória e com outras pessoas diagnosticadas. A busca por Caridad não é só física, mas simbólica. Caridad representa alguém que viveu uma experiência extrema, alguém que fez do HIV uma escolha e não um acidente e com isso, se torna uma figura de conforto e de pertencimento. Marina se vê nela e tenta entender a si mesma por meio dessa outra história

Dentre as reflexões mais potentes que “Cartas para mim” proporciona está, em ênfase, o estigma associado às pessoas que vivem com HIV. Marina evidencia como os preconceitos em torno do diagnóstico permanecem vivos em múltiplas esferas da vida: nas relações afetivas, na família, na vida sexual, na saúde, no trabalho e até na forma como a pessoa passa a se enxergar, isto é, se autoperceber. A exclusão e o silêncio ainda fazem parte da rotina de muitas pessoas que vivem com o vírus.

O curta destaca a importância da escuta ativa, da empatia e do respeito às narrativas individuais. O que é exposto não é apenas o relato pessoal de Marina, mas a possibilidade de dar visibilidade para histórias que geralmente são silenciadas por estruturas de poder e normatização. O curta não se limita somente ao testemunho pessoal da autora, mas extrapola para a dimensão coletiva e diálogo acerca de um problema estrutural que é socialmente negligenciado e invisibilizado.

Mostra, por exemplo, de que maneira o HIV afeta o jeito e a maneira de amar. Os relatos de Marina são permeados pelo medo da exclusão, da exposição, do abandono e da solidão. Conviver com o vírus também significa conviver com o medo de ser visto como "perigosa", "impura". Essa narrativa se acrescenta à extensa trajetória de criminalização, exclusão e marginalização das pessoas com HIV, especialmente aquelas que se encontram em situações de interseção com outras formas de opressão, como machismo, homofobia, racismo e pobreza

É importante destacar que o preconceito contra pessoas com HIV não é apenas social, ele também é institucional, estrutural e muitas vezes, reproduzido por serviços de saúde, políticas públicas e meios de comunicação. Marina aponta como o HIV, apesar dos avanços terapêuticos e da maior disponibilidade de informação , ainda é um tabu mesmo com o passar dos tempos. A sociedade trata o HIV com silêncio, como se falar sobre isso fosse vergonhoso ou, até mesmo, perigoso. Esse silêncio é de tamanha violência quanto o preconceito explícito, pois impede a criação de redes de apoio, políticas eficazes e espaços de escuta e acolhimento. O silêncio dificulta até mesmo a disseminação de informações verdadeiras acerca do impacto do vírus da imunodeficiência humana.

Cartas para Mim” também convida os telespectadores a pensar sobre a ética do cuidado e da escuta. A busca por Caridad é marcada por um desejo genuíno de compreender, de se conectar e de não julgar pessoas semelhantes à ela. Caridad representa uma figura que rompe todas as convenções morais esperadas sobre a saúde. Marina não tenta explicar ou justificar sua decisão, mas sim apenas encontrá-la e ouvi-la. A escuta, no contexto em questão, é um gesto político: é reconhecer a complexidade das escolhas humanas e a subjetividade individual dos cidadãos, é entender o contexto, é suspender o julgamento.

A obra também é um exemplo de resistência narrativa e política por ser dirigida por uma mulher lésbica. A interseccionalidade está presente ao visibilizar duas mulheres, lésbicas que estão vivendo com HIV e que escolhem contar suas histórias para o mundo. Ao fazer isso, a direção rompe com a representação hegemônica e histórica do vírus, geralmente associada a homens cisgêneros que se sentem atraídos por outros homens. Mostra que o HIV atravessa corpos diversos e que, em muitos casos, há um duplo ou triplo silenciamento: por ser mulher, por ser lésbica e por viver com o vírus. Essa intersecção torna a narrativa ainda mais potente, pois evidencia como as opressões se sobrepõem e se multiplicam.

Além disso, o curta também nos faz refletir sobre a relação que temos com nossos próprios corpos. Marina compartilha como o diagnóstico alterou sua conexão com o corpo físico e simbólico. O toque, o sexo, o prazer e até o autocuidado passam a ser atravessados pelo medo e pela culpa. Existe um processo de reaprendizagem do corpo, de reconciliação com ele e da autoestima. Nesse contexto, propõe o afeto como potência de cura. Não uma cura médica, mas uma cura simbólica, emocional, subjetiva. A cura é resultado do acolhimento, da escuta e do apoio.

A estética da obra reforça as diversas dimensões que envolvem Marina Vergueiro. A câmera é lenta, íntima e contemplativa. As imagens de Cuba, os silêncios, os fragmentos da viagem, são aspectos da obra que contribuem para criar uma atmosfera de memória e introspecção. O curta se recusa a acelerar o tempo ou a oferecer respostas fáceis. Ele aposta na pausa, no detalhe, na presença e no relato. Essa decisão estética está profundamente alinhada com o conteúdo: assim como o HIV exige escuta e cuidado, o filme também exige do espectador tempo e sensibilidade.

Cartas para Mim” é, acima de tudo, um gesto de coragem e liberdade. Em um mundo onde tantas pessoas ainda são obrigadas a esconder seus diagnósticos, seus medos e seus afetos, o curta se ergue como um espaço de voz. Marina transforma sua dor em arte, sua história em denúncia e sua subjetividade em ferramenta coletiva de escuta. Ao narrar a si mesma, ela convida outras pessoas a também contarem suas histórias, rompendo o ciclo de silêncio que acompanha o HIV desde que ele surgiu.

Ao utilizar a escrita como um eixo narrativo, Cartas para mim cria um ambiente onde as suas experiências vividas podem ser restauradas sem a necessidade de eliminar a dor. Nesse contexto, as cartas não simbolizaram um fim, mas um meio para ressignificar.

Referencias:

Vergueiro, Marina. Cartas para mim. 2022.



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Película:Cartas pra mim

Título Original:Cartas pra mim

Director: Vergueiro, Marina

Año: 2022

País: Cuba; Brasil

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