Universidade Federal de Pelotas
Resumen:
Anatomia de uma Queda acompanha Sandra, uma escritora alemã que vive com o marido, Samuel, e o filho cego de 11 anos, Daniel, em um chalé isolado nos Alpes franceses. Um dia, Samuel é encontrado morto ao pé do chalé. Inicialmente, a morte parece acidental – uma queda. Mas as autoridades logo passam a suspeitar de assassinato, e Sandra se torna a principal suspeita.
Dirigido por Justine Triet, o filme é um drama focado no julgamento de Sandra, explorando as complexidades do relacionamento do casal e as dificuldades dentro da família. A narrativa é construída por depoimentos, flashbacks e confrontos no tribunal, revelando detalhes sobre a vida do casal, suas brigas e segredos.
Daniel, o filho cego, tem um papel central, pois sua percepção da situação desafia as conclusões óbvias sobre a culpa ou inocência da mãe. O filme aborda temas como a subjetividade da verdade, a fragilidade dos laços familiares e as dificuldades de comunicação entre pessoas que se amam.
O filme provoca reflexões sobre justiça e moralidade, mostrando que a verdade muitas vezes é complexa e ambígua, e que múltiplas perspectivas coexistem em histórias familiares marcadas por dor e conflito.
Palabras Clave: Laços familiares | Comunicação | Conflito
Anatomy of a Fall
Abstract:
Anatomy of a Fall is a drama directed by Justine Triet that tells the story of the investigation into the death of Samuel, found dead at the foot of the chalet where he lived with his wife Sandra and their blind son Daniel. Initially, the death is treated as an accident, but Sandra soon becomes the prime suspect for murder. The film focuses on Sandra’s trial, exploring the complexities of the couple’s relationship and the difficulties faced within the family.
The narrative is built through testimonies, flashbacks, and courtroom confrontations that reveal details about the couple’s life, their conflicts, and secrets. Daniel, the blind son, plays a central role, as his perception of the situation challenges obvious conclusions about his mother’s guilt or innocence. The film discusses themes such as the subjectivity of truth, the fragility of family bonds, and the difficulties of communication between people who love each other.
The film provokes deep reflections on justice and morality, showing that truth is often complex and ambiguous. It challenges the viewer to question their own judgments and to recognize the multiple perspectives involved in a family story marked by pain and conflict.
Keywords: Truth | Justice | Family Relationships
Resenha Crítica: Anatomia de uma Queda (2023)
Anatomia de uma Queda, dirigido por Justine Triet, é um drama judicial e psicológico que mergulha profundamente nas complexidades do amor, da verdade e da justiça. Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes 2023, o filme traz à tona questões universais por meio de uma narrativa que combina suspense, análise de caráter e crítica social. Esta obra desafia o espectador a refletir sobre os limites do conhecimento humano, o peso dos julgamentos morais e as múltiplas camadas da verdade.
A trama gira em torno da morte misteriosa de Samuel, um homem encontrado morto ao pé do chalé onde vivia com sua esposa Sandra e seu filho Daniel, que é cego. Embora a morte inicialmente seja tratada como um acidente, as autoridades começam a suspeitar que Sandra pode estar envolvida no caso, transformando-a na principal acusada. A partir desse ponto, o filme acompanha o julgamento, mas não apenas como um processo legal, e sim como um palco onde se desenrolam conflitos pessoais, memórias e versões distintas da mesma história.
Um dos grandes méritos de Anatomia de uma Queda está na forma como ele aborda a subjetividade da verdade. O filme não entrega respostas definitivas; pelo contrário, ele explora as incertezas, as contradições e a complexidade das relações humanas. A “queda” do título não se refere apenas à morte de Samuel, mas também às quedas emocionais e morais dos personagens, que enfrentam suas próprias limitações e dilemas.
A obra levanta reflexões sobre os limites da linguagem e da comunicação. Muitos dos conflitos surgem da incapacidade dos personagens de expressar seus sentimentos e intenções com clareza, o que se torna um fator crucial no julgamento. O filme questiona o quanto podemos realmente entender o outro e até que ponto a verdade é uma construção dependente do ponto de vista.
Além disso, Anatomia de uma Queda é uma crítica indireta à justiça e à forma como o sistema legal lida com casos complexos e subjetivos. O tribunal não é mostrado apenas como um lugar de busca pela verdade, mas também como um espaço onde narrativas são moldadas e manipuladas, e onde as verdades pessoais podem ser distorcidas para se encaixar em versões convenientes.
Sandra Hüller entrega uma performance brilhante como Sandra, capturando toda a complexidade emocional da personagem. Sua atuação é multifacetada, transitando entre momentos de vulnerabilidade, raiva, resignação e força, o que humaniza a personagem e evita que ela seja reduzida a uma simples vítima ou vilã.
A direção de Justine Triet é precisa e sensível. A cineasta utiliza planos fechados e um ritmo que alterna entre tensão crescente e momentos de reflexão, imergindo o espectador no ambiente claustrofóbico do tribunal e na intimidade fragmentada da família. A montagem é inteligente, intercalando passado e presente de forma fluida, o que ajuda a construir uma narrativa que é tanto um mistério quanto uma análise psicológica.
Anatomia de uma Queda é uma obra provocativa que vai além do gênero de drama judicial. Ele questiona as certezas que temos sobre a verdade, a justiça e o amor. O filme convida o espectador a reconhecer a complexidade das emoções humanas e a aceitar que nem sempre é possível encontrar respostas claras ou finais felizes.
Trata-se de uma produção que destaca a importância do olhar crítico e empático diante das histórias alheias, especialmente quando envolvem dor e perda. É um convite para refletir sobre como julgamos os outros e sobre a própria natureza da verdade, que pode ser tão instável e multifacetada quanto as relações humanas. Em suma, Anatomia de uma Queda é um filme que permanece na mente do espectador, despertando questionamentos e emoções muito tempo depois de seus créditos finais.
Um dos grandes méritos de Anatomia de uma Queda está na forma como aborda a subjetividade da verdade. Ao contrário de narrativas convencionais que conduzem a uma resolução clara, o filme opta por explorar as múltiplas versões de um mesmo acontecimento, mostrando como a verdade pode ser fragmentada, ambígua e profundamente influenciada pela perspectiva de cada personagem. A ausência de uma conclusão definitiva sobre a culpa de Sandra leva o espectador a refletir sobre o quanto nossas certezas são moldadas por afetos, expectativas e interpretações pessoais.
Nesse contexto, a fragilidade dos laços familiares é exposta de maneira delicada, mas incisiva. O relacionamento entre Sandra e Samuel é permeado por silêncios, ressentimentos e frustrações acumuladas. Ainda que haja amor, ele é constantemente ameaçado por dificuldades de convivência, expectativas não correspondidas e feridas mal curadas. O filho, Daniel, se vê emocionalmente dividido entre o desejo de proteger a mãe e a necessidade de compreender o que realmente aconteceu com o pai. Essa tensão revela como os vínculos familiares podem ser ao mesmo tempo fonte de afeto e de dor.
A dificuldade de comunicação entre os personagens é outro elemento central da trama. Muitos dos conflitos vividos pelo casal decorrem de mal-entendidos, da falta de diálogo sincero e da incapacidade de expressar emoções profundas. A linguagem –tanto verbal quanto não verbal– falha constantemente em dar conta da complexidade dos sentimentos, contribuindo para o distanciamento afetivo. No tribunal, essas falhas comunicativas são amplificadas, revelando como até mesmo declarações objetivas podem ser interpretadas de formas distintas, dependendo do olhar de quem as escuta.
A partir desses elementos, o filme desenvolve uma crítica sutil, porém contundente, à justiça e à moralidade. A instituição judicial é apresentada não apenas como um espaço de julgamento legal, mas também como um palco simbólico onde verdades são construídas, desconstruídas e encenadas. O julgamento de Sandra, mais do que esclarecer os fatos, revela os limites do sistema em lidar com casos em que as evidências são atravessadas por emoções, subjetividades e memórias fragmentadas.
Por fim, o filme questiona o próprio conceito de moralidade. A audiência é convidada a refletir sobre até que ponto é possível atribuir culpa ou inocência em situações marcadas por complexidade emocional e humana. Anatomia de uma Queda não oferece respostas simples, mas sim provoca um desconforto produtivo: o de perceber que muitas vezes julgamos com base em fragmentos, intuições e percepções enviesadas. E que, diante da dor e do conflito, talvez a busca por justiça devesse ser acompanhada, também, de empatia.
Referencias:
Triet, Justine. Anatomie d’une chute (Anatomia de uma Queda), 2023. Filme.
Festival de Cannes. Palmarès 2023. Disponível em: https://www.festival-cannes.com
Foucault, Michel. Verdade e formas jurídicas. Rio de Janeiro: NAU, 2003.
NOTAS
FORUM
Anatomía de una caída se trata de una obra que manifiesta lo imposible del lenguaje. A través de un recorte de la intimidad de una relación de pareja, la comunicación presenta tantas fallas que no termina de servir para expresar emociones profundas, padecimientos, y hasta para dar a ver la propia inocencia o culpabilidad respecto a la muerte de un ser querido.
Es así, que la película presenta una contundente crítica a la noción de verdad, la cual se ve sustituida por un complejo intento fallido de expresar lo propio, y dónde la naturaleza de los síntomas de pareja se ven atravesados por las particularidades de la neurosis y su vínculo con el saber. Resulta interesante para la clínica del psicoanálisis, tener en cuenta la complejidad y fragilidad de los vínculos entre las personas que se aman. Entender estas dificultades en la comunicación, es una forma de conocer el estatuto propio del lenguaje, que deja por fuera lo real del registro de lo simbólico, y que a su vez, se trata de un armado singular en función del vínculo con el Otro.
Que gran pelicula nos presenta Justine Triet, desbordada de ambiguedades y con mínimas certezas nos embarcamos en un proceso judicial donde la "verdad" está fuertemente atravesada por las subjetividades, tanto de la familia, como del poder judicial y del espectador mismo. Las emociones humanas, como bien dice la autora de este documento, juegan un papel fundamental en la construcción de los hechos y por consecuente en lo que tomaremos como realidad o verdad subjetiva. La disyuntiva de Daniel, por ejemplo, quien quiere proteger a su madre nos evoca muschisimas dudas sobre la veracidad de su relato. Es que en este evento tan traumatico para el niño los recuerdos fragmentados abundan y las complejidades comunicacionales no parecen esclarecer la situación.
Creo que este filme construye una pregunta que no va a tener nunca una sola respuesta y esa es precisamente su mayor virtud. No se nos ofrece un rompecabezas a resolver, sino, más un espejo donde se reflejan nuestras propias subjetividades y la imposibilidad de conocer la verdad absoluta dejándonos con la inquietante tarea de decidir nosotros en que creer y por qué creer.
Buenas noches!
En consonancia con la lectura de la autora, podría pensarse la disposición de la complejidad de verdades, atrayendo al espectador a partir de la verdad de Sandra. Punto éste de partida para entrar en las ramificaciones que hacen de la perspectiva del relato un elemento tan subjetivo como la del propio espectador.
Incluso podría pensarse en la multiplicidad idiomática entre Sandra y Samuel, en términos de la complejidad de eso excesivo que brota de su conflictiva en aumento. Y la distancia sobre los hechos. Quiero decir, no sólo del espectador, sino de cualquier involucrado en el curso del juicio: la casa aislada allí al pie de los Alpes.
Pienso que el gran trabajo de guion y dirección (especialmente), sugieren al espectador el camino hacia la clarificación de una verdad que ciertamente no proponen brindar. Sostiene la pregunta en el decurso complejizante de su trama y deja ahí sueltos interrogantes que reverberen en el espectador, que intenten conmover algo de lo singular.
Película:Anatomía de una caída
Título Original:Anatomie d'une chute
Director: Justine Triet
Año: 2023
País: Francia
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